Servidor

Crédito Imagem: Marília Ferreira - Fonte: ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO - Autoria: Samantha Maniero

O seu futuro em uma escolha!

Tanto falamos sobre consciência de classe, sobre pensar nos mais humildes, nos trabalhadores precarizados, nos idosos, nas minorias... Mas fico me perguntando quanto dessas conversas realmente nos fez refletir.

Falar em diminuir o Estado pode parecer uma solução simples. Só que, antes de concordar, precisamos perguntar: diminuir o quê? E para quem? Qual serviço vai deixar de existir? Quem vai sentir falta dele?

Às vezes, essa discussão parece distante da nossa vida. Até faltar atendimento na unidade de saúde, professor na escola ou alguém que dê andamento a um pedido de aposentadoria. Aí aquilo que parecia apenas uma proposta política passa a ter endereço, nome e consequência.

Quero falar do serviço público e de quem trabalha nele. Não porque tudo esteja bem. Longe disso. Há problemas, insatisfações e muita coisa que precisa mudar. Eu também tenho minhas críticas, e não são poucas. Mas melhorar o serviço público exige mais do que anunciar cortes e tratar servidor como despesa.

Em comparação com tantos trabalhadores brasileiros, muitos servidores têm garantias importantes, como a estabilidade. Reconhecer isso não diminui as dificuldades de ninguém. Deveria nos fazer pensar no valor dessas garantias e no que acontece quando elas são enfraquecidas.

A estabilidade também interessa à população. Pense em um servidor que precisa denunciar uma irregularidade, recusar uma ordem indevida ou contrariar alguém poderoso. Como ele vai fazer isso se tiver medo de perder o emprego?

É por isso que me preocupa qualquer proposta que facilite a troca de profissionais conforme os interesses de quem está no governo. A administração muda, mas o atendimento à população precisa continuar. Não pode depender de amizade, indicação ou concordância política.

Também precisamos olhar com atenção para salários, benefícios e condições de trabalho. Não dá para afirmar que todos os direitos podem ser retirados de uma hora para outra. Mas também não dá para aceitar qualquer mudança sem perguntar quem será atingido e o que ela vai representar na prática.

Quando se fala em economia, quero saber de onde ela virá. Do corte de privilégios? Da redução do desperdício? Ou de equipes menores, salários desvalorizados e mais trabalho para quem fica?

O mesmo vale para concursos, terceirizações, privatizações e programas de desligamento. Essas decisões precisam ser discutidas com seriedade. Quem fará o trabalho depois? Em quais condições? Quanto vai custar? Quem vai fiscalizar? E como ficará a população que depende daquele serviço?

Nessa discussão, os sindicatos têm um papel que não pode ser deixado de lado. Quem trabalha no serviço público sabe como é difícil enfrentar sozinho uma decisão injusta, uma situação de perseguição ou um problema que atinge toda a equipe. Muitas vezes, o medo de se expor faz com que a pessoa fique calada, mesmo tendo razão.

O sindicato permite que essas dificuldades sejam tratadas coletivamente. Ele reúne as demandas, representa a categoria e cobra respostas da administração. Isso não significa que esteja acima de críticas. É preciso cobrar presença, transparência e compromisso dos dirigentes. Mas uma coisa é cobrar um sindicato melhor; outra é renunciar à representação coletiva.

Negociar diretamente pode parecer simples. Só que um trabalhador sozinho nem sempre tem condições de discutir de igual para igual com quem decide sobre sua vida profissional. Por isso, a participação sindical faz diferença. Um problema que parecia ser de uma única pessoa pode ser vivido por muitos e precisa de uma resposta para todos.

E essa representação não se sustenta apenas com a atuação dos dirigentes. É preciso participar das assembleias, acompanhar as negociações, questionar e ajudar a definir as prioridades. Quando cada um se afasta, todos ficam mais isolados. Aquilo que deveria ser uma reivindicação coletiva acaba virando uma dificuldade que cada pessoa tenta resolver sozinha.

Não quero transformar essa conversa numa briga entre pessoas que pensam diferente. Quero que a gente consiga discutir propostas concretas, sem aceitar slogans como se fossem respostas.

Quem defende uma mudança precisa explicar como ela vai funcionar. E nós precisamos ter disposição para perguntar, conferir e cobrar inclusive de quem apoiamos.

Os direitos que existem hoje foram conquistados ao longo de muitos anos. Há esforço, mobilização e muita gente por trás deles. Por isso, qualquer proposta que mexa com essas garantias merece atenção. E se quiserem conferir essas perdas de direitos, basta ler o programa de Governo do candidato Flávio Bolsonaro na página 44.

Essa discussão passa pelo futuro de quem trabalha como servidor público, mas também pelo futuro de quem precisa de escola, saúde, assistência e atendimento público. Passa pelas nossas famílias, pelos nossos filhos e por nós mesmos.

Antes de concordar com uma promessa de corte, de retrocessos, vale perguntar: o que será cortado, quem pagará essa conta e o que vamos receber em troca? Pensem nisso, colegas servidores públicos.

 Samantha Maniero - Professora da rede municipal de Piracicaba e diretora do Sindicato dos Trabalhadores Municipais de Piracicaba e Região.